terça-feira, 8 de maio de 2018

Viva - A Vida é uma Festa: uma opinião


"E aí? Chorou vendo Viva?
"Olha, eu chorei. Meu namorado chorou. A gente chorou abraçado. Foi bem impressionante..."

Faz tempo que um filme não fica na minha cabeça de forma tão marcante quanto "Viva - a vida é uma festa". Seja porque é uma animação de alto nível, porque a dublagem é de uma qualidade surreal ou porque os assuntos tratados são profundos e ao mesmo tempo delicados, de forma que não só crianças são tocadas mas os adultos também, se duvidar até mais. O fato é que Viva surpreende pela lógica e porque quando se acha que tudo está resolvido, há uma surpresa e nova emoção.

O filme gira em torno de Miguel, garoto mexicano, enfatizo mexicano porque é a primeira vez que esta nacionalidade é retratada num filme da Disney. O garoto tem 12 anos mas já precisa lidar com o fato de que sua família inteira repudia qualquer tipo de melodia devido a fatos passados, porém ele nasceu com música nas veias e de forma escondida exerce sua paixão. Talvez pelas primeiras cenas já se pressuponha que é mais um filme repleto de músicas bonitinhas e tem esse assunto o centro. Mas não.

Há algo de muito peculiar no dia em que se passa a história e já aí nota-se que as aparências podem enganar e que Viva não é um filme tão bobo e inocente quanto os pôsters podem sugerir. O dia em questão é o Dia de Los Muertos, considerado patrimônio da humanidade, para os mexicanos é quase como um Natal para os que já foram. Eles levam bem a sério o culto aos antepassados de sua família, inclusive já foi dito em novelas nativas, "Aqui é o único país do mundo onde se festeja com tanta alegria a morte", afinal segundo eles, seus familiares são suas raízes e o que são. Daí quem não sabe, percebe porque a Pixar é a dona da coisa toda, com direito a 9 Oscars na conta de Melhor Filme de Animação, incluindo Viva. Tratar de um assunto tabu até mesmo entre adultos em um filme infantil de uma forma tão bonita e tocante que até os marmanjos reviram seus conceitos, não é pra qualquer um. Aliás, colocar elementos relacionados a morte de uma forma que você admira e fica pasmo também não é pra qualquer um.


E pra isso, a produção não economizou em pesquisas da cultura mexicana, tradições do Dia de Los Muertos e até mesmo milhares de figurinos típicos do país para que o espectador tivesse de fato a visão de como é o ambiente. Foi a primeira vez que vi um cemitério retratado em um filme sem que tivesse a mínima ligação com terror. E sem que ele fosse distorcido de modo que ficasse "bonitinho" ou ameno só porque o público era infantil. Vemos todos os elementos que o compõe: túmulos, lápides, flores, velas e mausoléus, porém não daquela forma escura e assustadora, afinal, no México, a data não tem por objetivo chorar pelos que partiram mas lembrar deles e das coisas que deixaram, com alegria e festa, tudo relacionado aos mortos neste filme é colorido e brilhante. Por isso fazem oferendas com doces, frutas, flores, comidas favoritas dos que se foram além do fato dos mortos no filme serem retratados como as típicas caveiras mexicanas, coloridas e risonhas. E para alguém como eu que possui uma crença que trabalha conceitos de vida após a morte e desapego, eu gamei na hora.

Miguel, por sua vez, não compreende muito bem tão pouco dá valor a data e ás oferendas, até que um fato inusitado e desavença com sua família, propicia que ele mesmo vá parar no chamado "Mundo dos Mortos" e ao ver que tudo era real, que de fato existe uma ligação entre os dois mundos, ele começa uma busca que lhe mostra não só o valor de família, coisa para a qual foi bastante alheio, como também a importância de lembranças. No Mundo dos Mortos, conhece Héctor, um malandro que quer desesperadamente cruzar a ponte para visitar o mundo dos vivos. Nisso Miguel não só ganha um amigo mas alguém que desempenha um importante papel para que ele desvende detalhes sobre sua própria vida, lógico que com o tom engraçado e cômico que só os personagens da Pixar conseguem ter.

Como foi dito, há uma raiz muito musical em Viva, logo, as melhores músicas envolvem esses dois personagens. Tendo visto o filme em vários idiomas, atentei que os dubladores neste caso fogem um pouco dos nomes típicos que se conhece no ramo da dublagem, porém é visto um show de talento neste sentido, uma vez que os atores não só dão sua voz nos diálogos mas cantam, fornecendo uma naturalidade muito grande ao filme. Creio que no quesito tradução, com algumas mudanças de nomes e expressões o entendimento ficou mais fácil e tudo bem adequado, incluindo as canções. Deu um toque muito profissional e evitou quebras na sequência do filme, você de fato via mexicanos ali, com suas expressões tipicamente espanholas, mas tinha também se sentia a vontade percebendo que poderia cantar as lindas músicas em seu idioma materno.

Outra coisa que me pareceu inovadora pelo modo como foi feita foi a questão do fiel companheiro de Miguel: seu cachorro vira lata Dante. A Disney sempre trabalhou com mascotes, desde a Branca de Neve e seus bichinhos faxineiros é quase uma tradição ter aquele animal que acompanha o protagonista e normalmente gera lindas pelúcias, funko pop ou boas risadas, contudo Dante é diferente. Em suma, além dele ser um cachorro de uma raça originalmente encontrada no México, não está ali só pra ser um bichinho fofo, mas lógico, quem assiste só vai perceber isso ao final, que Dante não só é um nível acima dos mascotes da Disney como é o puro significado das tradições do Dia de Los Muertos.

Creio que Viva faz chorar porque toca a todos nesse ponto muito delicado de amor aos que nos são importantes, família, pode parecer um filme que trata de música, de lembranças, de morte, de lembranças aos que morreram, mas não, ele é um combo que junta tudo isso e por serem assuntos tão íntimos e comuns a todos os povos, mesmo sendo mostrada a visão mexicana, o mundo que viu se sentiu representado. 

E ao se sentir representado, indiscutivelmente também se sentiu tocado.

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