quinta-feira, 22 de março de 2018

Resenha A Forma da Água




Creio que esta música é a melhor maneira de se começar uma crítica ao filme ganhador do Oscar "A Forma da água" de Guilherme Del Toro.
Tentando dar menos spoilers possível, pois acredito que muitos não viram o filme ainda, devo dizer que A Forma da Água em termo de história e desenvolvimento é algo até previsível. O que vai tocar de fato quem assiste, é o caminho percorrido para seus desfechos. Talvez neste ponto é que haja uma identificação entre os personagens de Del Toro e seu público.
Tudo começa com Elisa (Sally Hawkins), uma jovem muda, funcionária da limpeza em uma base militar que mora sozinha em uma simples apartamento. Possuidora de uma rotina comum e seguida a risca, que inclui cozinha, banho e masturbação, possui poucos amigos com vidas igualmente rotineiras e problemas casuais. O amigo Giles (Richard Jenkins) mostra-se gentil, proporcionando a Elisa raros momentos de descontração e em sua vida pessoal lida com a batalha constante para que suas pinturas sejam aceitas em uma empresa. A amiga de turno de Elisa, Zelda (Octavia Spencer) dá um sentido cômico ao filme com suas falas engraçadas e reclamações da vida conjugal, a qual não parece nada animadora.
Assim como antes do trabalho, a limpeza da base também inclui horários fixos para cada atividade. Alguns afirmariam que se dependesse de 20 minutos iniciais teriam desistido, tal qual singelo é o decorrer das cenas. Contudo, logo isso muda com a chegada de uma criatura aquática, vinda do Amazonas, cultuada como um deus e que naquele local tem objetivo de ser usada como arma.
Talvez uma das coisas mais incríveis de Del Toro seja o visual que dá a seus personagens. Sempre há algo de extraordinário e incomum. Com a criatura aquática não é diferente, embora os conhecedores de filmes antigos consigam notar semelhanças gritantes com o Monstro do Lago Negro. Lógico que com o surgimento da criatura, o vilão se mostra mais incisivo. Os vilões são outro destaque de Del Toro, eles seguem um padrão bem característico, o de serem odiosos, maus, aqueles que se detesta de graça e sem nenhum remorso, com o Coronel Richard Strickland (Michael Shannon) não foi diferente. Sua brutalidade, autoridade, rigidez e até sérios preconceitos causam aversão de cara. É importante mencionar que através dele é que Elisa e a criatura ficam frente a frente pela primeira vez. E daí, há a ruptura que dá sentido a música do início do post.
Ao contrário do que parece pelo trailer e o que o imaginário sugere, não é uma historinha de amor do tipo: eu olho, você olha e ficamos juntos. Existem reconhecimentos e paredes que vão sendo quebradas conforme o avanço. E interessante se torna a evolução de todos em volta de Elisa a medida que tal avanço se dá. Del Toro tem uma qualidade única enquanto diretor: todos os filmes dele tem algo de bruto, de rugoso, de explícito como uma pedra não lapidada. Sempre tem alguma cena que você fica com a impressão de que ele tomou uns goles antes de escrever (talvez tomou até outras coisas além de uns goles). Normalmente, não há economia da parte dele em mostrar as sujeiras, feridas em carne viva, mazelas... tanto que você acha que o clímax chegou mas é trolado porque não chegou nem perto. 
Há surpresas quando você acha que tudo está na lógica. Porém, é no fim que Elisa e seus amigos, tal como a criatura, dão a lição maior: a de que você pode parecer desajustado ao mundo, mas não significa que não há um lugar pra você. É algo que se vai percebendo nas entrelinhas, nas condições de cada personagem e nas dificuldades que cada um enfrenta, social e
individualmente. Incluindo a própria Elisa, que mal tem uma fala e tudo nela se apoia na expressão corporal, o que denotou imenso talento de Hawkins, diga-se de passagem. Tal como ela, seus amigos também tem suas características que os incluem como pessoas ditas diferentes para a época e assim sendo, passíveis de terem que lidar com seus próprios sofrimentos.
E então percebemos que, de fato, A Forma da água, foi um filme feito para os que são peixes fora d'água. Ou como vi em outra crítica, "Um ode aos desajustados, aos incompreendidos, aos outsiders, aos párias", troque "Criatura Aquática" por "primo incomum" ou "pessoa com gostos diferentes" ou "amigo quieto e introvertido" e você perceberá que há muitos como a criatura de Del Toro andando nas ruas e assim como ela, merecem o Oscar. Afinal, você pode até estar fora da água, mas ainda pode achar uma forma de construir a sua própria.

Um comentário:

  1. A fotografia é impecável, ao igual que a edição. Sem dúvida voltaria a ver este filme! Michael Shannon fez um ótimo trabalho no filme. Eu vi que seu próximo projeto, Fahrenheit 451 será lançado em breve. Acho que será ótimo! Adoro ler livros, cada um é diferente na narrativa e nos personagens, é bom que cada vez mais diretores e atores se aventurem a realizar filmes baseados em livros. Acho que Fahrenheit 451 sera excelente! Se tornou em uma das minhas histórias preferidas desde que li o livro, quando soube que seria adaptado a um filme, fiquei na dúvida se eu a desfrutaria tanto como na versão impressa. Acabo de ver o trailer da adaptação do livro, na verdade parece muito boa, li o livro faz um tempo, mas acho que terei que ler novamente, para não perder nenhum detalhe. Sera um dos melhores filmes de ficção cientifica acho que é uma boa idéia fazer este tipo de adaptações cinematográficas.

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