sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Enem: E lá vamos nós...



O Enem ainda está aí e gerando polêmicas ainda. Já são pelo menos dois anos falando do Enem e seus rebus e esse ano aconteceram algumas coisas bem dignas de menção. 

Lógico que é notório que o Enem segue uma sequência muito clichê. Logo ás vésperas da prova, são mostrados os estudantes com a cabeça nos livros, expressão compenetrada, o rosto rígido, dizendo o quanto se prepararam para aquele momento, o quanto tem o sonho de um curso superior. Há as campanhas reiterando a importância de se chegar no horário, de não esquecer os documentos ou levar a caneta certa. Momentos após a realização da prova, há os memes dos atrasados, o pessoal se dividindo em dois times: os que riem de quem se atrasou mesmo após os lembretes e os que querem parecer muito corretos dizendo "isso não é certo". Um dia depois vem as polêmicas do tema da redação, uns dizendo que era ruim, outros dizendo que era moleza, outros afirmando que não tinha nada a ver com a conjuntura mundial e etc. Daí após os resultados e gabarito, aliás, pouco antes, já vem de novo os muito corretos dizendo que não se deve fazer menção de profissões como atendentes de lanchonete ou pedreiros. E muitos ainda acrescentam que o indivíduo é mais que sua prova. Youtubers fazem vídeos disseminando a idéia de que o Enem é cruel, obsoleto, desleal. Mas é batata que mesmo com tudo isso, tão certo como o sol é quente, ano que vem tudo vai se repetir e com mais candidatos ainda do que este ano.

Em se tratando de estudo, é lógico que nada é fácil. Seria bom que todos descobrissem isso cedo e percebessem que, pelo menos no país que vivemos, estudo vai muito além de livros e cadernos. Numa análise pura e simples, pra que se estuda afinal? Qual o objetivo de você passar pelo menos 20 anos submetido a um sistema de avaliações e notas? A resposta de se alfabetizar talvez seja uma boa, afinal ler, escrever e fazer contas são bem necessários para o dia a dia. Mas o que mais? Pra ser alguém? Bem, muitas pessoas pregam que já somos alguém. Para ser importante? Muitos analfabetos ou pessoas de humildade extrema mas sabedoria de sobra foram importantes para este mundo por meio das ações e influência que exerceram na sociedade. Logo, talvez a resposta do porquê estudamos seja para conseguir uma possibilidade de vida diferente e melhor.

Lógico que houveram pessoas para as quais surgiram oportunidades e com sua forma específica de fazer as coisas, conseguiram mudar de vida sem precisar passar pelos bancos universitários. Uma rápida pesquisa mostra empresários, pessoas que viajaram para fora e conseguiram construir um patrimônio que as tirou de uma vida de privações. Contudo, é concreto que o estudo ainda é o caminho mais óbvio para se mudar. E isso vale tanto para alunos de escolas públicas quanto privadas. De públicas porque as privações já começam na própria escola, com déficit de professores e material. E privada porque o amparato pode ser dos melhores, mas é ilusão achar que nunca vão precisar lutar por nada. 

Nesse meio todo sempre há os que vão dizer que é difícil, que uns tem melhor condição para passar no Enem que outros. Ninguém nunca negou isso, mas afirmam que fatalmente será preciso uma boa dose de esforço, independente de quem seja. Sempre acho muito digno a disseminação da idéia de que os candidatos já são alguém, porém no ano em que completam 10 anos que deixei a escola, me sinto no dever de dizer que mesmo você já sendo alguém, não vai permanecer com 17, 18 anos pra sempre e o mundo não para de girar por ninguém e todos vamos precisar amadurecer e encarar a vida. É compreensível que a pressão exercida seja horrível. Dez anos atrás sofriam essa mesma pressão, ela perdura pela graduação, provavelmente vai existir no trabalho, seja ele qual for. É lógico que esgota, quem em sã consciência prefere de bom grado encarar matérias em muitos casos chatas do que fazer algo mais prazeroso? E mais ainda hoje que existem séries, redes sociais e netflix, é complicado que nesse processo não seja associada repulsa em proporção maior que prazer. Da mesma forma como as profissões mais humildes que viram alvo são dignas e honestas como outras, ajudam muitas pessoas a sustentar famílias, muitos vão querer algo melhor para si, incluindo os que estão nestas profissões em caráter temporário. E mais uma vez, o estudo se torna um caminho para isso, uma porta cuja  chave é o aprimoramento.

Mencionando os atrasados, os memes e afins, lamentavelmente, nesse ponto o vestibular virou um circo. Um espetáculo no qual se você virar um meme depois está no lucro. Quando eu fiz, em 2005-2007, a menção da palavra já deixava os jovens com um sentimento de responsabilidade e seriedade. Ninguém fica com 17, 18 anos pra sempre, lembra? E você vai ser cobrado como tal. Naqueles anos se preparava tudo com antecedência, eu mais de uma vez, cheguei meia hora antes e ficava sentada na minha cadeira lembrando das fórmulas e dos macetes. Talvez fosse mais fácil, naqueles anos só havia celulares que ligavam e recebiam ligações e mensagens de texto, nada de selfies, whatssap ou facebook, era você, sua caneta e sua cabeça. Devo dizer, no entanto, que não acredito que havia tão menos congestionamento e menos candidatos assim na época pra justificar tantos atrasos e ainda dizer que foi o trânsito. A tecnologia e a rapidez de como esses meninos viram celebridades instantâneas devido a algo que devia ser reprovável de algum modo faz com que se atrasar para algo importante para o qual há um preparo de um ano, simplesmente não pareça algo tão errado assim. Logo, talvez não seja tão reprovável assim rir.

Quanto a redação, esse ano eu devo dizer que vibrei. Não vi tanto rebu no Facebook, nem tanta reclamação, nem tanto print exaltado, vi reclamações plausíveis e certa insatisfação. Lógico, com um tema como o desse ano "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil", muitos foram pegos pelo pé. Considerando que muitos escreveram que para facilitar a educação dos surdos são necessárias rampas nas escolas, o tema foi definitivamente um divisor. Ele separou os alunos bons de prova dos que acham que redação é igual a textão de Facebook, no qual umas palavras exaltadas, umas expressões chamativas bastam pra ganhar o like do corretor. Um tema desse num ano em que provavelmente esperavam coisas como transexualidade por causa da polêmica da novela, ideologia de gênero ou bullying por causa dos atentados, falar dos deficientes auditivos deve ter sido um desafio e tanto. Como nem todos sabem bem do que se trata surdez e só tem por referência aquela pessoa que pergunta mais de duas vezes o que alguém disse, creio eu que esse ano vai dar trabalho. Talvez os que lembraram de uma coisinha chamada "Libras" também conhecida como linguagem brasileira de sinais, em como escolas particulares e públicas tem professores que não possuem esse conhecimento nem mesmo nas universidades, dispensaram criatividade e souberam colocar isso em palavras cultas consigam se dar razoavelmente bem.

O Enem mesmo que não queiram vai continuar sendo um processo importante, pode não ser o mais ideal para se entrar numa universidade, porém é o que temos. Talvez demore para mudar, porém é fato que por pior que seja ainda é a porta mais óbvia para muitos, torcemos para que ele seja encarado com seriedade e que hajam menos jovens chorando nos portões no dia da prova e mais deles entrando nos portões das instituições de ensino superior.

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