quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Bullying: ele é real. Mas até quando?



Ultimamente o Brasil tem sido abalado por múltiplas tragédias motivadas por diversas razões gerando um choque com a intensidade e gravidade delas e o quão elas atingem um cerne profundo que muitos julgavam ser possível ver somente lá fora, em países longe daqui. O mais recente foi o caso do rapaz de 14 anos que atirou na escola, matando colegas e deixando feridos outros. Ao se investigar os motivos, foi afirmado que a motivação foi bullying, o que reacendeu novamente um assunto que na maior parte do tempo julga-se esquecido até que algo chacoalhe as estruturas aonde ele ocorre.

Claro que no meio de tantas notícias que aparecem, desde que o rapaz era nazista até que ele tinha conexão com ET's, é de se esperar que mesmo hoje seja complicado para muitos compreender o que é esse ato. O bullying ocorre quando entre duas partes (bullie e bulinado), que supostamente estão se divertindo juntas, somente uma ri. No seriado Chaves, muitos afirmam de pés juntos que ali há bullying, mas é fato que Chaves chamava Quico de "bochechas de buldogue velho" e recebia um "burro" de volta, cinco minutos depois estavam os dois brincando felizes de futebol e decidindo quem ia ser o Luís Pereira. Se os dois riam no fim, não era um caso típico.

O mesmo não se pode falar de quando a piada parte de um ponto e o sujeito alvo se sente mal, envergonhado ou errado de alguma forma não condizente com a realidade. Lógico que muitos vão
dizer que já passaram por isso, seja lá por que fator for, quando crianças, porém o que vai dizer o quanto de prejudicial há nessas brincadeiras aparentemente bobas é a frequência e a intensidade que elas ocorrem e as remanescências que permanecem. Nessa linha tênue, o bullying é subestimado no quanto pode ser nocivo e em como pode gerar consequências graves, a curto e longo prazo.

Ainda que no mundo tenham ocorrido inúmeros casos extremos relacionados a ele, não há atenção digna para com o assunto. O Brasil não é exceção nesse cenário, mesmo com um caso dessa repercussão. Nas escolas, não importando a espécie, não há um trabalho sério, profissional e condizente. Na semana em que um rapaz atirou dentro de uma sala de aula, já era hora das instituições olharem melhor para seus alunos, para o que fazem e como agem. A educação recebe-se em casa, mas na escola vai ser o exercício dessas regras e se há algo errado, é função dela dar um alerta que seja aos responsáveis.

É totalmente previsível que vão haver os que afirmem piamente que se está "defendendo um assassino", pessoas extremas opinando em casos assim são desnecessárias, pois a violência é ruim em qualquer circunstância e em nada auxilia para se conscientizar sobre o que quer que seja, porém pode-se olhar o que há além disso. Em discussões frisei que não utilizo a palavra "vítima" neste caso. O motivo para isso é muito simples: todos foram de certa forma vítimas, porém também algozes em
algum momento, logo todos perderam sua razão e chegaram a um limite que não deveria nunca ter sido alcançado. Nada justifica o que o rapaz atirador fez, porém se foi um caso de bullying, isso também não devia passar em branco.

Em tragédias assim, os olhos se voltam primeiro para quem agrediu, ou seja, quem matou. Um dos pontos mais evidenciados era o fato dele ser filho de militares, palavra que já gera uma certa defesa. Numa rápida análise, pessoas dessa profissão já são meio desprezados por quem os paga, recebem raiva e repulsa daqueles pra quem trabalham e são odiados pelos que combatem, assim bastou que soubessem que o rapaz tinha contato com esta categoria para que as críticas (e raiva) fossem direcionadas não só a ele, mas também a seus pais, como se os mesmos tivessem ensinado ele a atirar desde pequenininho e seu móbile tivesse fuzis ao invés de ursinhos. Levantou-se a questão do porte de armas, mesmo que em caráter de objeto de profissão, porém numa opinião pessoal, isso se mostrou muito mais como uma forma de desviar o foco através de uma discussão de cunho político do que algo relacionado ao caso. É como se não houvesse muito interesse ou houvesse pura negligência em um episódio no qual o bullying foi pano de fundo.

Á propósito, boa parte não parece sequer acreditar no bullying em si, não param um segundo pra perceber que ele também é um crime, nem neste caso em específico nem em outros, conduzindo a questão como se fosse apenas um "exagero" ou "vitimismo bobo", levantando a bandeira do "sofri mas nunca matei ninguém", como querendo exaltar seus próprios egos inflados. Questionam o caráter do atirador, resume tudo a isso, pressupõe o diagnóstico de "psicopata" ou apelam para o simples xingamento de "lixo", clamam por uma punição exemplar, o problema é que por mais indefensável e injustificável que seja a atitude, por mais que sim, ele tenha arestas de caráter, o bullying é real. E se numa hipótese não tenha sido neste caso, é em muitos outros ao redor do mundo.


Quando o trio armas-raiva-bullying entram em cena, as coisas podem sair do controle facilmente. E já que muitos precisam de exemplos pra entender, não raro em séries e até desenhos mostrarem o quanto as coisas podem terminar de forma trágica quando são empurradas com a barriga. No episódio 25, do desenho Super Shock (Jimmy), é mostrada nitidamente essa relação do bullying e armas. Ao sofrer bullying pesado por parte de um colega, Jimmy consegue pegar a arma do pai e vai para a escola com ela decidido a dar fim em quem o perturbava. Detalhe: no desenho, o pai era um civil qualquer que tinha uma arma na gaveta que o garoto conseguiu destrancar roubando a chave, o pai não era militar nem Jimmy recebeu instruções. Ele também tinha amigos e no momento da raiva um deles até disse: "Você está com raiva agora, mas daqui a uma semana não vai ligar, não estraga sua vida toda por causa disso". Outros ainda falaram que o bullie não valia isso e no fim, por ACIDENTE, um dos amigos de Jimmy é baleado. A diferença é que depois dessa fatalidade, a escola toma providências: o bullie é colocado pra fazer serviço comunitário e leva uma suspensão, Jimmy também recebeu ajuda. Ao fim do episódio a lição de que todo mundo devia ter aprendido algo com aquilo e não se deve levar armas para a escola nem praticar esse tipo de perturbação, mas aqui seria preciso umas 200 reprises desse episódio para algum aprendizado por parte das instituições e das pessoas.

Além dos desenhos, o bullying foi retratado em séries (CSI Las Vegas e CSI Miami) de forma muito reflexiva e com a seriedade que merece. No caso de CSI Las Vegas, o palhaço da turma foi encontrado baleado no banheiro, gerou surpresa, afinal, ninguém "tem medo do palhaço da turma". Ao voltarem os olhos para os outros alunos, perceberam que todos eram alvo do morto, logo metade dos alunos queria a cabeça do dito cujo. Percebendo essa complexidade, até mesmo dos membros da equipe perita disse: "Vendo os DOIS lados da situação, não digo que o que aconteceu foi certo, mas eu até entendo". O que era mais perturbado pelo bullie e sua família foram investigados, a irmã não escondia a raiva que sentia das agressões que o irmão sofria tanto quanto não escondia a felicidade pela morte que ocorreu. Surpresa ao fim do episódio quando se descobre que a assassina foi a própria diretora. Numa visão distorcida de evitar justamente um grande massacre, ela utilizou como justificativa que se eliminasse o bullie, que era a causa de todos os problemas, evitaria que um dos bulinados saíssem atirando num corredor cheio de jovens, afinal, "Uma vida era melhor que 20 ou 30".

Já em CSI Miami, as coisas foram além. Nas férias, três universitários foram encontrados mortos em diferentes circunstâncias, se percebeu logo que eles eram alvos. Descobriram que no campus, eles haviam humilhado uma garota gordinha e colocado um vídeo íntimo na internet, a vítima retirou a queixa e sumiu. A cena do interrogatório é bem chocante, dá pra ver que a menina tinha muitas cicatrizes. Curiosamente (ou não), o discurso dela é o mesmo que poderia ser dito por qualquer bulinado brasileiro: "Eu implorei por ajuda e ninguém fez nada. Eles arruinaram minha vida e saíram impunes. O que eles fizeram comigo foi desumano, eles mereceram o que tiveram". E da mesma forma como vi em muitos comentários em páginas daqui, os que agrediram primeiro no episódio, ainda que não merecendo tal destino, terminam com suas fotos mostradas com uma música lenta ao fundo, como se também não tivessem feito nada.

É muito comum, quase universal, que os que se dizem autoridades negligenciem o bullying. Vejo as diretorias e coordenações pedagógicas tratarem o assunto da mesma forma banana que tratavam quando eu estudava a 10 anos atrás, ainda colocando o bulinado como um culpado por "ninguém querer ser seu amiguinho". E quando acontece algo como o que houve, vão para a TV dizer que lamentam, para não ter publicidade negativa, dizem que vão fazer um memorial, transformar a sala do atentado em sala de artes, nada que havia antes e passou a existir porque houve mortes, tal como ocorreu em 13 Reasons Why, a menina se suicida por causa de bullying e enchem a escola de cartazes, dá vontade de dizer: "Cara, vocês são muito incompetentes. Se liguem!". 

Além da parte pedagógica, sempre há uma "autoridade" para falar sobre a parte psicológoca do garoto em questão. E eis que um desses fala com todas as letras que "nunca viu bullying matar ninguém" e que o garoto não sabia lidar com as adversidades e frustrações da vida. Considerando que profissões e tudo relacionado a saúde mental são consideradas tabu, com uma declaração dessa, eu senti vergonha pela classe. O bullying é de fato um teste sobre como lidar com situações, em muitos casos ensina você a lidar com cretinos de maior ou menor grau. Na vida adulta você lida com pessoas sem caráter em filas, restaurantes, pode sofrer assédio moral no trabalho ou universidade, muitos lidam deixando quieto, outros esperam que pare e não entendem bem quando está indo além do limite, mas uma coisa é certa: ninguém vai sair atirando em quem o irrita, mas entre você lidar com pessoas que ficam rindo dos seus óculos e chegar chorando em casa todo dia ou se sentir um alvo ambulante há uma zona abissal de diferença. Provavelmente este senhor desconsiderou quando pessoas se suicidam devido ao bullying, ocorrência tão terrível quanto massacres. A diferença é que nestes casos não há tanta comoção, nem reportagens, os bullies e a escola seguem embora a discussão em si também fique em segundo plano dando a nítida impressão de que tudo está bem desde que ninguém morra ou que morra somente um numa ação contra si mesmo.


Considerando um universo paralelo em que mortes não ocorram, ainda sobra o fato de que quem sofre acaba de algum modo morrendo em vida. Cicatrizes ficam por muito e muito tempo,  doendo e influenciando por anos a fio nas condutas e personalidades do indivíduo mesmo quando adulto enquanto que os bullies provavelmente nunca saberão o efeito dessas cicatrizes. Cedo demais infelizmente (ou felizmente) descobri que os bullies nunca vão deixar sua vida de fato, eles estão em todo lugar. Quando se entra na universidade, para muitos é um grito de independência, um sopro de esperança para sair da prisão da escola e das situações adversas ao ter que lidar com pessoas cretinas, mas a fatídica realidade é que os bullies só mudam de escolaridade. Muitos inclusive se valem de discursos hoje considerados nobres e de cunho social, daí com o apoio que recebem, tal como ocorre na escola muitos fecham os olhos para seus desvios. Muitos bulinados demoram anos até que aprendam que não há nada de errado com eles, aprendam a dizer não e não se sentir devedores de quem quer que se seja.

O caso de Goiânia tal como seu antecessor em Realengo serviu para que novamente haja discussão a respeito do bullying. Quando se trata dele todos os envolvidos necessitam de ajuda, de atenção e um trabalho coletivo, as famílias envolvidas neste caso foram atingidas de uma forma que todos estão sofrendo, todos estão sendo punidos de algum modo e precisando lidar com uma realidade dolorosa. Contudo, resta aos que estão acompanhando tentarem não buscar culpados, mas desenvolverem uma consciência de não mais ignorar determinados fatos de modo que tragédias assim não mais ocorram.




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