quarta-feira, 7 de junho de 2017

Não seja uma pessoa protocolar



Ainda que a comoção por 13 Reasons Why tenha passado, é inegável que deixou um rastro de reflexões e questionamentos sobre muitas coisas, tal qual um cometa que passa e deixa para trás o brilho de sua cauda.

Óbvio que saltou aos olhos foi a questão do suicídio de Hanna, o quão o bullying pode ser destrutivo e o quanto as ações decorrentes do bullying podem ser devastadoras, não só para quem o pratica mas quem é vítima da prática. Reitero que não vi a série, porém comecei a me aventurar em algumas cenas e figuras. Quando se trata de morte, dois lados sempre estão envolvidos, o de quem vai e o de quem fica.

Em especial suicídio, quem fica normalmente é acometido por questões ensurdecedoras sobre as causas, os motivos e porquês do ato. Claro que no caso de Hanna, ela deixou isso muito claro através de suas fitas, logo os questionamentos passaram a ser se haveria chance de talvez se ter evitado o que aconteceu. Ponto ocorre algo interessante, para dizer o mínimo

E nesse ponto ocorre algo interessante, para dizer o mínimo, quando se trata de sociedade no geral. Há uma necessidade ou até mesmo motivação em ser uma pessoa dita protocolar, em cumprir uma série de rituais ou reproduzir falas mesmo que não esteja sentindo absolutamente nada do que fala.

Quantos cartazes sobre prevenção do suicídio não apareceram na parede da escola de Hanna após seu ato impensado, ou melhor, calculado? Muitos inclusive que eram seus algozes, porém para parecerem decentes para os calouros e obter sua admiração, não hesitaram em discursar sobre a importância da conscientização. Clay, amigo de Hanna, que viu tudo aquilo, não teve estômago e fez outro discurso para os novos alunos.

Gritou que havia um armário que pertencia a Hanna Baker e que ela tinha se matado por causa das pessoas que faziam bullying e que naquele momento se preocupavam em colar cartazes. É perfeitamente compreensível a atitude a atitude de Clay, em algum momento, essa necessidade alheia de cumprir um ritual, normalmente com muita hipocrisia reinando, por vezes faz o outro explodir de raiva e revolta.

Não há falta de quem afirme que funerais e velórios nada tem para os mortos, mas são para os vivos. Há muito sentido nisso quando se analisa as reações das pessoas no momento da notícia de morte de alguém conhecido. Há os que se chocam, os que ficam surpresos, os que ficam indiferentes, os que sentem de fato a falta da pessoa pelo que a pessoa realmente era e há os que só cumprem um protocolo de ações pré-estabelecidas.

Nesse contexto, é realmente de cair o queixo muitas das atitudes com relação a morte. Quantos, tal qual como houve com Hanna, não tratam os outros como porcarias a vida toda, mas basta acontecer uma dessas fatalidades do destino que lá estão nos grupos de whatsapp colocando mensagens de apoio, de conforto, cumprindo o protocolo para parecerem muito generosas, solidárias ou até mesmo para um conforto para com as próprias consciências? Tais protocolos adoecem a sociedade e lamentavelmente estimula capas que quando tiradas, magoam muito mais do que se houvesse um descortinamento desde o início.


Ser uma pessoa protocolar é em muitos casos ser infiel consigo mesma e posteriormente para com os outros. É incentivar uma conduta que pode causar rachaduras no ego e na auto estima das pessoas, problemas nas relações, ilusões... Talvez por isso que protocolos devem ficar somente nos processos burocráticos, com pessoas as condutas devem ser diferentes...

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