quinta-feira, 20 de abril de 2017

O Desafio da Baleia Azul e novamente 13 Reasons Why


Considerando a volubilidade do Facebook, é possível dizer com toda certeza que a série 13 Reasons Why e o Desafio da Baleia Azul estão em alta por mais tempo do que as coisas normalmente ficam na rede. É compreensível, uma vez que ambas as coisas tocam em pontos muito delicados e despertam opiniões, mesmo de quem quer ficar a margem.

Para começar, o desafio da Baleia Azul foi um desafio que começou na Rússia, o qual tem por objetivo o cumprimento de várias tarefas perigosas até que tudo culmina no suicídio de quem o pratica. Á primeira vista parece no mínimo estranho que alguém, por meio de instruções vindas de um desconhecido, através do meio virtual, possa cometer atos tão sérios e horríveis. Como é possível que alguém possa ter tamanha influência sobre outras pessoas especialmente adolescentes?

Passados os sustos e surpresas iniciais consegue-se a resposta. Quando alguém está vulnerável, seja por tristeza ou qualquer sentimento, abre uma porta que se escancara para qualquer coisa ou pessoa que ofereça algum tipo de preenchimento. Isso puxa outros assuntos que também foram abordados por 13 Reasons Why: a depressão e outros problemas de cunho psicológico. Mesmo que muitos achem estas doenças algo menos importante que outras, é fato que elas são reais e tem um agravante sério: são silenciosas demais, não se mostram externamente, por vezes demora muito até que o primeiro sinal apareça, transformando tudo em uma ameaça letal.

Como eu havia dito no post de 13 Reasons Why, a morte é um tabu. Um tabu em sua iminência, durante o momento em que ocorre e no depois dela. As doenças como depressão estão relacionadas com isso, em casos mais extremos, segundo dados mais precisos, o suicídio decorrente de depressão tem matado mais que o vírus HIV e em maioria esmagadora, jovens. Há muitas questões envolvidas com relação a dados tão impressionantes, começa que adolescentes e jovens não parecem ter motivos para pensar em coisas "tristes" e "deprimentes", mas o ponto é justamente que a depressão não precisa de motivos, pode haver um gatilho ou algo que destrave esse portão, desde bullying até morte de alguém querido,  contudo, nem sempre vem por uma razão específica. E por causa disso aparecem críticas ferrêneas.

A mais comum é que ocorre por falta do que fazer e frescura. Acredito que há um fundo de verdade nisso, de certa forma é falta do que fazer, porém a coisa certa. Para a pessoa deprimida falta aquela coisa que a preencha, que a faça sentir viva, algo que lhe dê o tchan e a sacuda trazendo-a para fora do furacão em que se encontra. Muitos conseguem sair disso sozinhos, é mérito, não se deve desconsiderar, contudo mesmo para algo igual vivido e experenciado, duas pessoas podem reagir de forma diferente. E é nessas pessoas que não reagem da melhor forma que os olhares precisam se voltar. Não que elas sejam imaturas ou fracas, talvez só não encontraram as pessoas certas no caminho que pudessem fazer algo por elas que realmente ajudasse e as fizesse perceber que não estão sozinhas.

Aliás, esse ponto é muito delicado também. Se há dificuldade em se compreender essas doenças, porque ocorrem e quem é acometido, logicamente que haveria dificuldade das pessoas de lidar com isso. Talvez seja exatamente essa dificuldade que nos tempos em que desafios como o da Baleia Azul são lançados que é necessária atenção com quem se dispõe a ajudar as pessoas acometidas. Em se tratando de depressão e tendências suicidas não cabem pessoas com atitudes protocolares, aquelas que dizem, porém só dizem, o velho "estou aqui pra ouvir você". Não que a vontade de ajudar e se dispor a compartilhar campanhas virtuais não tenha valia em intenção, contudo a verdade é que em casos sérios nada substitui ajuda profissional com habilidade para lidar com a situação. E ter a noção de que se deve incentivar a pessoa a procurar tal ajuda.

Isso tudo para que se evite a velha situação de alguém escutar e falar meia dúzia de palavras porém não mais que isso. Claro que há boas intenções que acompanham a ação, contudo é preciso perceber quando alguém necessita d e mais do que o outro tem capacidade de dar. Evita muitos dissabores e frustrações. Ou dar de encontro com gente que compartilha campanhas, compartilha textões, se mostra indignado com o modo como falam de depressão porém somente está cumprindo aquela premissa de ser cool, de se mostrar generoso, antenado e preocupado com o assunto do momento porém sem a total habilidade de continuar ouvindo quem precisa, por vezes sem a vontade também. Afinal, mesmo que inconscientemente, muitos tem a prerrogativa de que querem ver o outro bem, seguram na sua mão quando ele está embaixo porém não o ajudam a subir, pois mesmo desejando isso ainda querem manter seus gramas a mais de felicidade.

Numa experiência pessoal, não me impressiono com essas figuras que querem parecer muito inteligentes ao compartilhar textos e artigos científicos de psicologia, exaltando autores, pregando revoltas com o Desafio da Baleia Azul e comoção com 13 Reasons Why, contudo em 10 minutos de conversa você percebe que elas são pouco mais que um poste em termo de calor humano, relação e não hesitariam em chamar você de alesado mesmo sabendo que está passando por uma crise. E que talvez nem saibam ou nem se atentem que ouvir e acolher não é garantido com diplomas, cargos importantes ou títulos mas por capacidade e aprimoramento, pois há psicólogos pra quem não se pode entregar o dedo mindinho para cuidados, o que dirá sua estrutura emocional. Muito provável boa parte dessas pessoas são as que atravessam a rua pra não falar com o amigo deprimido, lembra os gramas a mais de felicidade que eu mencionei? Pois é, elas não querem "se contaminar". Elas são capazes de desligar o celular pra não receber chamadas e inventam que não estão. Na boa, compartilhar milhões de figuras na rede e ter atitudes assim pra mim, pega muito mal.

Voltando a bendita Baleia Azul, é covardia se aproveitar da vulnerabilidade para induzir as pessoas a se mutilarem e fazerem outras coisas do gênero. É desumano você se aproveitar de pessoas que estão com suas portas e entranhas escancaradas desejando avidamente serem vistas, aplacarem um pouco de sua solidão e encontrarem um motivo para continuarem acreditando na vida... Viver é incrível, contudo não significa que não seja assustador em muitos momentos e dependendo da pessoa, esses monstros se tornam imensos e as engolem. Com toda a polêmica da série e da Baleia Azul se formos ver a fundo, provavelmente o problema maior não seja a depressão, existe algo acima disso. O problema está no deficit de ouvir os outros, de perceber que aquele coleguinha pode não estar tão bem parece, o problema está nas pessoas. Porém, mesmo assim, há esperança, porque onde está o problema, também está a solução, basta essas mesmas pessoas abrirem um pouco mais os olhos...

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