quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Rótulos: por que não curto

"Minha senhora, eu não vendo coisas velhas. Sou um agente especializado em compra e venda de artigos para o lar." Com essa fala, Seu Madruga se desrrotulou do título de vendedor de velharia. E não nego que ficou bem mais abrangente e divertido assim. Ultimamente tudo tem sido tratado como matemática: se x passa para o lado direito fica com o sinal negativo e depois é igual a y. Isso é mesmo muito lógico e exato, mas só funciona nos livros e equações.

As pessoas são mais abrangentes do que isso. E muito mais propensas ao acréscimo que um mero título ou rótulo limitante. Eu poderia me apresentar assim: Prazer, meu nome é Rhayssa, sou uma profissional da área da saúde que utiliza recursos físicos para promover o bem estar biopsicossocial das pessoas, traduzindo, sou fisioterapeuta.

São os rótulos que criam um cerco em volta de nós, uma muralha imposta que tapa o sol e não nos permite ver o horizonte, causam estranhamentos em algo que devia ser natural. As diferenças que deveriam fazer aprender, rotuladas afastam mais. Rótulos geram preconceitos. São eles que ainda fazem muitos pensar que soros positivos são aquelas pessoas de rua, promíscuas e drogadas, quando o mais bem vestido, no mais caro carro, por um descuido no manuseio de uma agulha em um ambiente hospitalar pode ter contraído o vírus. Os gays/lésbicas são pessoas de caráter, pois este depende da vontade não da orientação sexual. Gordinhos podem ser felizes mesmo fora do padrão, há pessoas que se sentem bem sozinhas, nerds não são virgem malucos e assim a gente vai se desrrotulando.
Esses títulos e carimbadas regam intolerâncias ao invés de podá-las. Lendo alguns textos, o que era pra ser natural, vira rótulo. Ser gentil, acreditar na igualdade dos sexos, viver cultivando paz e respeito traduz-se em feminista, pacifista e talvez mais alguns istas, quando o nome é ser humano de humanidade, não só de espécie. Não á toa que a força desses carimbos é tão grande que ainda perdura o mito de que prostitutas só servem pra transar, mulheres que gostam de sexo são putas e há feministas que entram em crise de consciência e identidade se curtem um sadomasoquismo. Já vi textos de mulheres perguntando se era errado, como se devessem satisfação de algo que é estritamente delas a algo ou alguém.

Já me chamaram de machista velada porque escrevi um texto criticando um texto escrito por uma feminista, só um detalhe: não enchi de palavras e opiniões negativas, apenas apontei o que concordava e discordava e o porquê. Um desses pontos foi a Valeska Popozuda ser supervalorizada por ter virado dissertação de mestrado e tida como um ícone em decorrência de suas letras referentes a liberação feminina. Contudo, não gosto do ritmo que ela canta na maioria das vezes, não concordo com as idéias que ela coloca para o público em suas letras, não fingirei que concordo porque em teoria isso me representa, seria canalha da minha parte. Não podem me chamar de machista por isso.

Outro exemplo que vi foi o de uma garota atéia dizendo que ateus são as pessoas mais honestas que ela conhece porque não vivem com medo de um Deus e de um inferno para o qual serão mandadas caso façam algo errado. Achei desrespeito não com religião, mas com as pessoas, já que nem todos acreditam no inferno ainda que acreditem em Deus, inclusive eu. O texto se tratava do Estatuto do nascituro, por um triz não digo: "Meu bem, o inferno é onde você está com seus pezinhos feministas neste momento. Pois certas opiniões não são regidas por crença ou religião, mas por um caráter e um jeito de ver a vida que diz que matar é errado, não importando se a pessoa tem 60 anos ou 3 semanas intrauterinas". 

Talvez esse seja um exemplo de uma atéia que rotula quem acredita em Deus de um jeito negativo tanto quanto os pastores Feliciano e Bolsonaro rotulam os gays. Tenho consciência de que me chamariam de machista, diriam que meu blog dá câncer (eu recebi uma dessa), me chamariam de alienada, daí pra baixo. É alógica do rótulo, se você não faz isso, se transforma nisso; se discorda daquilo, passa a ser aquilo outro. Sem muito meio termo, só a equação lógica sem nuances.

Não curto rótulos porque eles limitam, mesmo os que não tem essa intenção. Eles acentuam e enfatizam as diferenças de um modo negativo. E para mim, o caminho para o mundo se unir, não é abolindo fronteiras, acabando com religiões ou trocando sistemas, o caminho é respeitar as diferenças, sem pré-concepções, sem rótulos, estar aberto ao aprendizado e ir evoluindo conforme nossas necessidades e o possível. Começa dentro de nós o jeito do mundo se tornar um.











4 comentários:

  1. Opa. Esse eu ainda não tinha visto também. Bem, não tenho muito a acrescentar ao que você disse. A maioria das pessoas tem dificuldades em se livrar dos estereótipos, né? Vale a pena refletir para "desrotular" (acho que o termo filosófico mais técnico para isso é desconstruir).

    Continue escrevendo.

    Até ^^

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  2. É, é uma dificuldade que muitos tem mas que precisa ser superada. É muito válido a gente procurar refletir a fim de desrrotular ou descontruir como vc diz, ambas são válidas ^^. Obrigada por comentar!

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  3. Otimo texto. Acredito que as pessoas olham muito mais para o lado negativo, enfatizando mais os "defeitos" do que as virtudes. O olhar para o próximo é algo superficial, pois as pessoas tem algum receio de mergulhar nos motivos e razoes de ser do próximo. E a saída mais fácil é classificar, do que tentar entender......

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  4. Isso mesmo, sempre é difícil abandonar velhos hábitos, o que dirá atingir um equilíbrio sobre o que são rótulos ofensivos e quando se deve passar por cima deles, deixando-os pra lá, pois não são realmente significantes. Ainda há muita dificuldade de se fazer essa diferença, mas o que se deve ver é quando esses rótulos de fato ofendem o cerne do outro, de quando isso realmente cria um rombo no seu eu. Obrigada por comentar, fico muito feliz por acompanhar!

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