segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A história de Doegue e Allat





Tem algumas histórias nas quais vale á pena se inspirar. E em dias como os de hoje que meninas querem apresentar negócios aos pais, que de preferência venham com cláusulas contratuais vantajosas e claras, acredito que algumas love storys deem um pouco de luz á baixa que o amor vem sofrendo.

Doegue era um guerreiro de elite, cheio de experiência em campos de batalha. Fazia parte do exército de um rei muito poderoso, que durante as batalhas precisava acampar por diversos lugares. Ele era meio assustador e matava cegamente caso o rei pedisse, Doegue não era de ter medo.

Allat era bem diferente das outras mulheres do lugar onde vivia. Além de estrangeira e médium, era o que se chamava de idólatra, alguém que adora vários deuses, não é precisamente um problema, porém na época era um crime. Daí ela por isso foi hostilizada por todos a sua volta, sendo rotulada de feiticeira e tida como alguém ruim.

Allat e Doegue eram casados. E o relacionamento dos dois era bem conturbado. Como soldado, ele tinha que zelar pelo bem estar de seu país e casar com uma estrangeira não era visto com bons olhos pelas

outras mulheres. Um dia, Allat foi descoberta adorando outros deuses dentro do acampamento sendo expulsa por isso, mesmo sendo esposa de Doegue. Sua punição por lei seria a morte, mas o rei poupou sua vida desde que fosse embora e não voltasse. Nela isso doeu muito, pois amava Doegue demais.

Mesmo com uma vida proscrita, Allat espreitava o acampamento na esperança de vê-lo e abraçá-lo, ainda que por alguns momentos. Ele por sua vez, dizia que era loucura e a expulsava. Talvez não tivesse a mesma forma de sentimento de Allat, mas a preferia longe e viva do que morta.

Na ânsia de ter Doegue de volta. Allat aceitou um acordo traiçoeiro com a rainha e acabou sendo descoberta fazendo um ritual para afastar espíritos malignos de perto do rei. No calor dos ânimos, ela queimou o rosto no fogo que estava perto e perceberam sua presença nos arredores. Doegue não a defendeu, ao contrário, disse que não tinha envolvimento com ela. Arrasada, Allat recebeu a punição que  não recebera anteriormente: morte.

Os soldados a amarraram e o rei jogou a primeira pedra em sua testa. As outras pessoas do acampamento fizeram o mesmo. Menos Doegue. Ele a olhava com pesar e virou as costas para não vê-la cair. Só que quando o corpo de Allat tombou ao chão, foi ele quem o carregou nos braços. Ela sobrevivera. Doegue a levou para uma caverna distante onde cuidou das suas feridas que doiam e ardiam, ficou lá até que ela se recuperasse.

Ele gostava de Allat, embora seu jeito meio distante e indiferente sugerisse o contrário, a natureza de soldado valente lhe imprimia essa maneira. Só que ele precisou também lidar com maldições, uma vez que ficou doente. Muito doente.

O bravo soldado era portador de lepra. Ou doença de Hans. Ou simplesmente Hanseníase. Hoje em dia, é só ser diagnosticado e receber a medicação antibiótica de graça nos postos de saúde. Ainda há um imaginário em torno disso hoje, mas na época de Doegue era como uma maldição jogada sobre ele.
Houve tentativa de esconder as manchas e as feridas, mas ao tomar banho em um lago, foi descoberto e expulso do acampamento. Ninguém queria ficar perto dele com medo de ficarem imundos e amaldiçoados. Ninguém, exceto Allat.

Uma vez que ela conhecia ervas, cuidava de Doegue á medida que a doença avançava. Ela não tinha nojo nem medo. Os dois passaram a viver na caverna, isolados dos outros e das ameaças. "Você não tem nojo de tocar nas feridas?" "Não, sempre vou cuidar de você, meu amor".


Doegue se revoltou muito com seu destino, não aceitava sua condição sempre lembrando com dor tudo o que havia feito no exército do rei. Somente Allat o abraçava e confortava nesses momentos, puramente por amor. Ele chegou a pedir que ela o matasse, mas esta se recusou, uma vez que o amava e ainda que os dois estivessem sofrendo, ela permaneceu firme em seu sentimento de apoio.

Na fase final de sua doença, Doegue se arrastava pelo chão, estava tomado pelas feridas que cheiravam mal e não sentia mais as pernas devido a doença ter atingido seus nervos. Nessa hora, se arrependeu. Se arrependeu de tudo o que havia feito para Allat e percebeu o quanto o amor dela era grande. Ela, por sua vez, se perguntava o que faria dali pra frente, uma vez que ele era seu companheiro de uma vida inteira. E em meio á dor, o guerreiro habilidoso desfaleceu nos braços da mulher amada. 

Acredito que o amor de Doegue e Allat é o retrato de um amor maduro. Eles não eram um casal de jovenzinhos vivendo os arroubos da paixão nem incendiando com uma troca de olhares, havia momentos em que se podia até achar os dois sem graça ou que havia só amizade, mas eles talvez tenham atingido o cúmulo do amor. Um amor baseado em companheirismo, ternura, no desejo de ver o outro bem.

Doegue e Allat foram dois apedrejados pelo mundo. Ás vezes, bem literalmente. No entanto, um cuidou da ferida do outro e permaneceu do lado enquanto estava doendo. Isso dá um level up em relacionamentos, estar com a pessoa mesmo ela estando coberta de feridas.

Allat enterrou Doegue sozinha, cavou sua cova e proferiu preces. Acredito que eles foram um exemplo para o mundo, mostraram outros caminhos e hoje em dia, talvez estejamos necessitados de visões assim.

4 comentários:

  1. Bonita reflexão. Não conhecia essa história....

    ResponderExcluir
  2. ^^ Opa! Muito obrigada pelo comentário! Na verdade, essa história faz parte da minissérie Rei Davi, achei muito interessante toda a emoção e conflitos deles dois e resolvi escrever. Acredito que é uma história muito interessante que envolve muitos valores e nos faz refletir, eles deram uma lição: a de que quem ama cuida, literalmente. Feliz que tenha gostado e comentado!

    ResponderExcluir
  3. Por que allat não se contaminou tbm com a doença de doegue?

    ResponderExcluir
  4. Por que allat não se contaminou tbm com a doença de doegue?

    ResponderExcluir