sábado, 20 de outubro de 2012

Avenida Brasil: o perdão é liberdade




Pensei em alguma forma de começar este post. Várias formas na verdade. Me lembro quando vi pela primeira vez a vinheta de Avenida Brasil, achei legal o contraste da Rita criança e adulta e toda a carga de emoção que foi feita em torno da estreia.

Quem viu o último capítulo, pode ter se revoltado cm cenas mostrando uma Carminha boazinha, dizendo que amava o Tufão a sua maneira e tal. Mas... quem foi na verdade a Carminha? E a Nina/Rita? Carminha merece o inferno? Ou o paraíso? Absolvição ou condenação eterna? Talvez as duas devessem ir pro purgatório e tudo resolvido? Eram vilãs ou mocinhas? Quem estava certa? E errada?

Parto de um princípio que ninguém é tão legal assim que só mereça coisas boas nem tão ruim que não mereça uma segunda chance, ainda que essa demore a vir. Avenida Brasil mexeu com esses conceitos. Essa dualidade que existe nas pessoas, Carminha nutria um amor incondicional pelo filho e Nina motivada pelos seus traumas e raiva uma vontade de fazer justiça que por muitos momentos se confundiu com uma semente de vingança. Até onde vai a linha da justiça cega e imparcial e passa a ser uma vingança selvagem motivada por fatores pessoais?

O filme Kill Bill é uma super referência onde esses conceitos se confundem. Beatrix Kiddo era uma assassina que ganhava fortunas matando gente, mas ao ficar grávida todo seu amor e o que tinha de bom se voltou para sua filha. Decidiu abandonar a antiga vida em nome de seu bebê, mas nesse meio não se pode simplesmente sair pela porta dos fundos e ficar por isso mesmo. Daí, quase foi morta pela sua antiga equipe ficando em coma por 4 anos e achando que sua filha havia sido morta antes do nascimento. Uma vez desperta, firmou o propósito de se vingar (fazer justiça?) pelo que a fizeram passar. Uma das melhores frases do filme e que levo sempre comigo é aquela dita por Hatori Hanzo, o homem que fez a espada para ela: Vingança nunca é uma linha reta. É uma floresta. E como uma floresta é fácil de você sair do caminho, se perder e esquecer de onde veio.

Pode parecer estranho, mas no mundo não existem inocentes nem culpados. Se existisse não passaríamos pelo que passamos. Assim, todos nós plantamos e colhemos o que plantamos, seja pro bem ou pro mal, então não se pode dizer que não se merece isso ou aquilo. E não existem culpados porque não se pode dar o que não tem embora se possa escolher melhorar. No fim,  só existe o aprendizado.
 
Mas voltando pra Carminha, ela aprendeu. Aos trancos e barrancos, fazendo besteira, colheu, levou tapa na cara, “pagou” pelos seus crimes e aprendeu. A cena do almoço na casa da Mãe Lucinda foi humana, não teve melação e você sentia a tensão, como era difícil para as pessoas aceitarem que era pra ser daquele jeito e não havia escapatória. Nina/ Rita estaria ligada a Carminha pra sempre, então não adiantava ficar lutando e se machucando eternamente.

O abraço foi a clara visão do perdão, acho que é um sentimento muito nobre. E libertador. Definitivamente, faz apagar as coisas, faz você recobrar a saúde que havia perdido. Parece que naquele momento as personagens que passaram a novela inteira querendo fazer da vida da outra um inferno finalmente se libertaram, se libertaram pra serem felizes e aceitaram de bom grado o aprendizado que a vida lhes deu.

É claro, há coisas que são difíceis de perdoar. Vendo o Globo Repórter após a novela vi gente que fez a chamada “vingança do bem” e gente que pedia a Deus toda noite pra certa família virar pó. O que deixou essa pessoa doente, porque como dizia Shakespeare: Guardar ressentimento é como tomar o veneno e esperar que a outra pessoa morra. Também houve uma história bacanas de traição e mulheres que se “vingaram” na pessoa que mais vale á pena: nelas mesmas. Como? Se aprimorando, sendo independentes e no final até agradecendo aos maridos traidores por terem feito com que elas passassem pela experiência.

Isso mostra que ás vezes não se entende as colheitas e se acha uma injustiça, contudo o aprendizado é dado, se você escolhe abraçá-lo é opcional. Casos de bandidos, monstros como disseram na reportagem, eles também plantaram e vão colher. As “vítimas” muitas vezes se sentem vingadas na ação da própria justiça, embora isso não seja regra. Um malfeitor que estava livre na cadeia e de repente alguém pode sentir que não é o bastante e começa a desejr que ele seja maltratado, depois que ele morra, depois que vá para o pior lugar que existe (caso se acredite em vida após a morte) e aí se torna um círculo vicioso, a justiça foi feita, mas aquela raiva faz querer mais e aí é que quando se vê, a alma está tomada pelo desejo de vingança e o corpo pelas doenças geradas pelo ressentimento.

Eu já me vinguei e não me arrependo. Como o maestro que formou a orquestra disse: Eu to dando o troco, só que em outra moeda. Como foi? Bem, eu sofri bulling por pelo menos 6 anos da minha vida na escola, cansei de chorar pelo que as pessoas me diziam, me achavam esquisita, com cabelo feio, gorda, nada popular que só lia e não se interava com os outros. Fiquei com um carinha uma vez e ouvi coisas que não são legais de ouvir. Daí por essas e por outras resolvi me vingar. Me vinguei sendo eu mesma e fazendo meu castelo com as pedras que me jogavam. Botava the lonely sheperd e seguia em frente. Resultado: me aprimorei, passei  nos três vestibulares mais difíceis da cidade e hoje estou prestes a me formar, sendo que amo o que faço. E quem me fez mal? Bom, sei que o carinha com quem fiquei mal conseguiu completar o médio e não passou em vestibular nenhum, os outros não sei por onde andam, mas minha auto estima hoje já é o meu troco. E sabe o que é mais legal? Me vinguei não deixando de lado meus conceitos e sendo a mesma garota esquisita de sempre.

Acredito que o fim da novela foi bom, ele mostrou muito sobre aprendizado, sobre o que realmente faz evoluir, o que faz realmente bem e que todos nós temos nossos lados bom e mau e como um professor meu disse uma vez: são como dois cães, vence aquele que você alimentar mais.

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