quarta-feira, 16 de maio de 2012

Sonhos de uma noite de inverno


Ela sempre adorou o inverno. O fato do frio predominar na cidade quando o normal é estar quente. Ela sobe até a cobertura do prédio, todos a essa hora estão ou dormindo ou assistindo as novelas da noite. Não há ninguém, ninguém que veja.

Enxerga o banco de cimento, mas o frio faz com que ele pareça de mármore de tão gelado. Ela tira os chinelos, está vestindo uma camisa e um shortinho. Deita de barriga para cima, cruza as mãos atrás da cabeça e olha para o céu.

É curioso observar as nuvens, impera o tom de negro com umas manchas brancas esfumadas. Ao longe, o céu até tem um tom alaranjado. Ela sente um pingo no rosto, logo esses pingos aumentam. Uma chuva fina. Os pingos parecem pequenos flocos de neve, leves, branquinhos, mas que se sente o toque deles na pele, gelados, se sente o impacto deles no rosto.

A visão se concentra no céu. Os outros sentidos buscam seus estímulos. Consegue ouvir o barulho do trovão ao longe, mas ela não se assusta, quem dera que todo tempo nublado fosse assim e viesse com esse som. Escuta algumas falas, vozes confusas, não consegue entender as palavras, provavelmente são os vizinhos conversando ou o som da televisão. Tenta ouvir o som da cidade, aquele som agitado que se concentra lá embaixo na rua. Pessoas caminhando, buzinas (e quantas buzinas!), sirenes de ambulância e de polícia. Deixa sua mente livre...

Entorpece. Emudece. Sai de si... Alguns flashes se passam naquela mente, como um filme de cinema em uma tela. Lembra do dia, desde do levantar até o deitar no banco de cimento. Depois vai mais longe. Lembra do mês, da briga com os colegas, dos sorrisos, das vezes que não quis ir para suas obrigações, mas foi obrigada pela conveniência.

http://2.bp.blogspot.com/_hUTrccPBS1A/SwKabhA3-YI/AAAAAAAAARM/qT3eT5vlJPY/s1600/chove+l%C3%A1+fora.jpgLembra da infância, cenas de crianças brincando em parquinhos ou com bonecas. Como seria bom voltar, uma máquina do tempo talvez, quem sabe, seria oportuna nesse momento. Avança mais, as mãos saem de debaixo da cabeça e se estendem ao longo do corpo, é preciso mais conforto no momento. Entra na adolescência, o primeiro beijo na brincadeira com os amiguinhos de verão, a obsessão em ser a melhor da turma, tempos bons de festas e infindáveis bailes, o papel forçado de cupido e de amiga conselheira. 

O cheiro, agora ela sente o cheiro que se acostumou desde sempre a definir como “cheiro de chuva”, na verdade podia ser o cheiro do asfalto quente molhado com água fria, mas não importava, a impressão estava imortalizada dentro dela. O cheiro, os sons e a visão das nuvens: o conjunto. O que ela era agora, ambiente propício para eventos completos. Fecha os olhos. E vislumbra o presente. Algumas cenas passam na cabeça sobre o que passou até chegar ali. As lágrimas derramadas, as perdas, os aprendizados a duras penas, os porquês das coisas sem explicação e também as vitórias. Lembra das marcas no corpo e na alma até aquele dia.

Ela sempre adorou o inverno, o fato de poder se sentir tão mais próxima do céu ali naquele banco. Se sente feliz, satisfeita, um raio ilumina o céu como se concordasse. Ela finalmente aprendeu que para poder observar o céu mais de perto no alto durante um tempo chuvoso, foi necessário levar muitas chicotadas dos pingos embaixo. E isso é algo do qual ela tem muito orgulho...

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